Tique-taque do poeta preguiçoso

  • 1


07:00.
Sente pesar o corpo,
Contrai-se como um todo
A fim de lutar contra a tal sonolência
Que aos trancos presta sua ausência.
Um café malfeito,
Um bolo sem confeito,
A areia nos olhos
Por não ter conseguido dormir direito.

10:30. 
Pragueja à chuva
Que se aproxima às lufadas,
Tranca as janelas e
Chacoalha as páginas molhadas
Danificadas pelos vacilos
Que dá enquanto escreve.
Reorganiza tudo enquanto oscita de leve.

Meio-dia. 
“Panela no fogo, barriga vazia”.
Vai, então, recobrando a energia,
Torcendo o nariz para a mente vazia
De tantas ideias jogadas nas folhas
Molhadas de chuva, já cheias de bolhas.

17:00
Café gelado que de manhã pelava,
Espreguiçando-se no sofá, que já lhe chamava.
A televisão em volume inaudível,
No enfado do domingo
Ver expressões sem voz parece algo incrível.

20:00. 
Sonhando com as páginas,
Repousando sem lágrimas.
O sofá tão rígido e desconfortável
Já então lhe parece afável.

23:40. 
O poeta acorda.
As noites pelo dia ele troca.
Sonhar ao dia, trasladar à noite,
Antes que o esquecimento torne-se um açoite.

01:00. 
Reúne a fantasia, a realidade e o som
Ao descobrir que poetizar é um dom.
Apercebe-se que está com sorte
Ao ver que nas folhas, a criatividade traçou riscos fortes.




Manoelle D'França

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A renúncia de um anjo

  • 0


Da vida a pior crueldade, foi mostrar-me aquele anjo
Ao chão jogado, sem qualquer resquício de dignidade.

Os abraços que um dia dera, tornaram-se vis correntes de aço.
Os beijos que recebera, nada passavam de traquejos para traições.
Os dependurados que salvara do precipício da insensatez, puxaram-no pelos pés e assistiram sua queda.
Os friorentos a quem aquecera, certo dia envolveram-se em suas penas arrancadas a contragosto,
Deixando suas belas asas em frangalhos.

O homem a quem dera seu amor, fizera do anjo uma meretriz.
Os cabelos um dia feitos das nuvens do céu, agora não passavam de uma fumaça cinzenta que inibia a visão.

O belo anjo ao cair, descobrira ter ossos, carne e sangue
E que levantar-se sozinho seria o começo de todo o desagravo.
Descobrira que era um ser humano e que abençoar os passos alheios não seria agir como tal.

Malícia, do que outrora não soubera o significado, tornara-se seu olho esquerdo
E a vingança, que um dia fora pura tolice, tornara-se seu olho direito.
Sua armadura protetora tornara-se nada mais que uma pobre vestimenta em andrajos.
Mas seu poder tornara-se intenso. E aniquilador.




Manoelle D'França

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Presentes Vislumbres do Passado

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Serena menina ao sereno da madrugada
Brincava na beira do oceano que com a água agitada
Espalhava conchas pela areia límpida
Que beijava os pés da menina, cuja alegria era nítida.

Enquanto a lua vigiava sua candura
A menina corria, de vaga-lumes estava à procura
A eles fazia pedidos como se fossem fadas
Que quando soltas, iam ao encontro das estrelas brilhantes no céu penduradas.

O vistoso algodão-doce no céu
Estava distante demais para suas mãos miúdas
Cobria a lua como um véu
Mas sequer chegava perto de sua boquinha pedinte de açúcar.

As flores que dançavam com a suave brisa do mar
Serviam-lhe de coroa para reinar sob os encantos do luar
A areia era da princesa o aposento
Até que amanhecesse em seu quartinho decorado
Com o coração sonolento e sonhando alto.



Manoelle D'França



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E se?

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Se você disser que me ama, esperará que eu me entregue?
E se eu disser que nunca me entrego, nem aos meus obstáculos e nem a ninguém?
Se eu disser que te amo, você será incondicionalmente ao meu lado?
E se eu disser que o incondicional não há?

E se eu provar que não sou como as outras?
Que piso em todos que se curvam demais diante de mim?
Ainda assim tentaria encarar-me na altura dos olhos?
E se eu os fechar?

E se eu disser que não presto?
Decidirá correr incansavelmente atrás de mim?
E se eu disser que correr não adianta, porque só sei voar?
Ainda assim você decidiria pegar carona com um anjo?

E se eu disser que um anjo levaria-te alto demais, enquanto que eu voo quase com os pés no chão?
Ainda assim tentaria flutuar para alcançar-me?
E se eu disser que não sinto nada por ti, você acredita?
E por que será que, apesar de tudo, eu também não acredito?



Manoelle D'França

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A Velha Morada

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Desenho espirais na poeira da mesa.
Enquanto junto as cadeiras, relembro as cenas de uma antiga surpresa.
As fotografias e roupas espalhadas pelo chão,
Trazem-me ao pé do ouvido uma velha canção.

Cândidos pássaros invadem a casa,
Fazem-me acreditar em um possível recomeço.
Solos de piano invadem a sala
E fazem-me esquecer de tudo o que ainda conheço.

Sons que surgem do passado,
Pássaros enviados do futuro,
Luzes que ascendem das janelas,
Fazem-me respirar fundo.

Há algo distante daqui,
Porém vivente dentro de mim.
Algo parecido com esperança.
Contudo, não é bem o que parecia,
Recai-me como nostalgia.

Algo ainda habita a velha morada
E ainda deixa passos pelas escadas.
Algo como o brilho nos olhos de uma criança,
Que parecem relâmpagos de alegria
Distantes de quaisquer lástimas,
Mas que na verdade, são apenas lágrimas.




de Manoelle D'França


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Materno

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Tornou-se mulher
a moça que um dia foi menina.
E seu ventre fez-se crescer,
Fez-se nascer, gerar vida.
Anjo de luz esvaindo-se em amor,
Ser santificado
que traz em seu sangue a dor.

Mulher, genetriz, cúmplice, irmã;
Doce cantiga de cada manhã.
Amor inabalável,
Perdão incontestável.
A bússola que me leva ao norte,
A mais frágil das obras,
Erigida em colunas violentamente fortes.

A torre, o refúgio, o pão.
Guia que me carrega pela mão.
Do seu corpo perpetrei meus alentos:
Em seu ventre, lar;
Em seu seio, alimento.

Mãe.
Teu gerar penoso,
Teu olhar cauteloso,
Teu doce acalento,
Trazem-me proteção contra o cruel relento.
Mulher que ao conceber, fascina;
Teu incondicional amar ensina
que de tão esplêndida,
Para Mãe, não há rima.


de Manoelle D'França


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Canário & Carina

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No topo da colina
Vive uma menina
Preciosa beldade
Bonita Carina.
Menina, me olha
Carina risonha
A altura do monte para mim é peçonha.
Menina Carina
Levante o vestido
Ponha os pés no lago e faça um pedido
Que algum canoeiro a traga consigo
Que a deixe na margem e em tom de perigo
Avise que os pássaros tomam o lugar.
E quando te vir, para ficar contigo
Aprendo a andar ou te ensino a voar.



de Manoelle D'França


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Partindo com a Lua

  • 2


http://fc04.deviantart.net/fs21/f/2007/300/e/d/eda432291c386e3a.jpg



Admirei a Lua antes de partir.
Conversei com ela
e confessei ter acordado pensando em coisas sem sentido,
Do tempo em que, à noitinha, eu sussurrava em seu ouvido.
Senti saudades do que não tive, daquele amor não correspondido;
Dos sonhos que, jogados pela janela,
Foram parar em outros travesseiros;
Daqueles teus carinhos, tão cínicos e traiçoeiros.


Desci, então, as escadas do velho terraço
e fui em direção ao quarto pouco iluminado;
Despedi-me do facho de luz que me escapava pela cortina.
Deslizei os dedos pelos livros empoeirados
E despedi-me docemente do antigo espelho quebrado,
Que todo o tempo lembrava-me de meus fracassos;
Mostrando-os a mim todos os dias de minha vida,
Não permitindo-me que se sarasse sequer uma ferida.


E então, parti.
Mas deixei um rastro antes de ir.
Rastro feito com o sangue da ferida exposta em meu coração,
Ferida feita pelas punhaladas da solidão.
Em meu sangue, sujei a velha caneta-tinteiro
e deixei uma mensagem ao próximo marinheiro:


'E daqui partiu com a Lua um espírito solitário,
Que não mais cursa o mesmo caminho.
Alguém que após o abandono,
Sentiu o frio da solidão congelar o sangue
outrora corrente em suas veias.
De um coração moribundo largado às tantas de uma madrugada.
De um ser andarilho viajando de volta ao pó da criação humana.
De uma única centelha apagada há tempos.'




de Manoelle D'França





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Pureza Daninha

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Ó, rainha, erva-doce, erva minha.
Venenosa estrela-de-anis, dos lábios de botão de rosa e olhos negros como cassis.

Ó, mulher, feiticeira; ó, menina.
De alma impenetrável como um espelho,
Refletes minha imagem de volta sem revelar-me teu interior;
Bem como o imaginário mel dos teus lábios deixa-me em dissabor,
Por não saber seu gosto,
Por ainda não ter descoberto o grau de ebriedade que me traz este amor pressuposto.

Branca rosa, recendendo a sedução.
Quero provar da tua doçura, quero sentir o toque da tua mão.
Quero tocá-la suavemente, como se toca as cordas de uma harpa,
Quero bebê-la numa taça de cristal.
Para remover do meu coração esta farpa,
Só mesmo tua inocência cedendo a este amor irracional.

Quero descobrir tuas belas curvas, moldando-as como barro.
Quero ter-te acolhida, sob o meu afago.
Quero mostrar-te o céu, e remover de minha boca o fel da desilusão.
Quero provar-te, quero amar-te.
Quero dar-te meu coração, moído em reluzentes grãos de paixão.
Quero dar-te de um homem apaixonado, a devoção.

Dê-me a oportunidade de fugir dos meus sonhos e viver a tua realidade
Deixe-me mostrar-te o que é o amor de verdade.



de Manoelle D'França 


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Doces amargos sonhos

  • 10




    Todas as minhas noites... Todas elas, são mágicas.
    Da porta dos meus aposentos à maciez do meu travesseiro, todos os meus sonhos se realizam, e então eu consigo ser indiscutivelmente feliz por algumas horas. Preciosas horas.
    Mas é digno de ser lembrado que momentos bons voam. Passam tirando tudo do lugar e, de repente, somem como uma tempestade repentina, como chuva de verão. E então tudo se acaba... outra vez.
   Minhas noites são mágicas porque eu as passo todas acordado, desperto, ocupado demais para dormir; realizando meus sonhos mais improváveis, doces, impossíveis.
    Meus doces amargos sonhos. Que são doces por darem cor às minhas noites sombrias, e amargos porque todas as manhãs voltam a ser preto e branco como uma fotografia antiga corroída pelo tempo.
   Minhas tristes e volúveis manhãs, que cobram-me todos os dias o alto preço por sonhar demais. Alto preço que me dói pagar, pois não pode ser quitado com as "preciosidades" pelas quais a humanidade se autodestrói, mas sim com algo muito mais valioso: O amor à própria alma. Amor pálido, falido, amor do qual já não me resta nada, de tantas dívidas que tenho pago às minhas manhãs.
   Oh, minhas manhãs. Elas não sentem dó deste pobre diabo que vos fala.
   Esses meus doces sonhos que me realizam todas as noites, são os mesmos que me fazem despertar com o coração amargo por descobrir todas as manhãs... que é tudo ilusão de meu espírito itinerante e devaneador.
   Por isso, meu coração está ferido, porém já repleto de cicatrizes. 
   Eis meu mal tão singular: a Doença dos Sonhos, crônica, degenerativa; que vai formando sulcos em seu coração até que sejam o suficiente para rasgá-lo ao meio, até que você não mais suporte a dura realidade de saber que seus doces sonhos são amargos e extintos.






de Manoelle D'França


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Colorida Desordem

  • 0





    O amarelo era o elo singelo entre a cor e a coragem. Porém, avidamente a vida mente sobre a sequência das consequências.
    Do amarelo, amar e elo, surgem a cor, a coragem e o singelo. Do amarelo-coragem, procedem amar, elo e cor, que unidos agem.
    A simples desordem da ordem que desmonta as dez montanhas do pensamento, em certo momento.
   Do rubor da rubra dor, o que vem primeiro? O primo ou o herdeiro? Do tintureiro, a tintura ou o tinteiro?
   Desta desordem, seguem-se mais que dez ordens.


de Manoelle D'França





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O blog anda parado, não?

  • 5



  Olá,
  Este post é para esclarecer o porquê de o blog andar tão parado e sem textos novos por mais de um mês.
  Bem, primeiramente, peço desculpas aos meus amigos e leitores, que tanto andaram me perguntando o que houve ou se eu havia desistido de escrever. Muito pelo contrário, queridos amigos, o que está me ocorrendo é que tenho dedicado esse tempo ao meu primeiro livro, à minha obra. Terminar meu romance é um sonho que preciso realizar. Comecei a escrevê-lo antes mesmo de completar meus doze anos, e após algum tempo o deixei de lado; minha obra ficou longos anos de lado. Isso não deveria ter acontecido, visto que para quem escreve, uma obra é como se fosse um filho, um pedaço de nós.
  Enfim, o blog ficará um tempo sem coisas novas, mas vocês serão muito bem recompensados no fim da minha primeira obra, estou escrevendo com toda a força de vontade e sentimentos que possuo. O blog voltará à ativa assim que possível com coisas maravilhosas para vocês, leitores e amigos.
  Torçam por mim para que minha obra seja terminada e aceita!
  Um enorme beijo a todos, e muito obrigada pela preocupação e compreensão.





Manoelle D'França 


Angustiamor

  • 2





Ele dizia que as chagas haviam se fechado
E que as injúrias haviam sido superadas
Dizia que somente as mãos dela tocavam as suas
E que seus cabelos eram os únicos que se mantinham presos
no travesseiro dele pela manhã.
Ele dizia que a pele dela era a única coberta que aquecia
seu corpo no frio
E que seus olhos eram as únicas lâmpadas que ele acendia
nas noites em que a escuridão se fazia sombria.


E, apesar da dor, ela cria piamente em tudo.


Ele dizia que a cintura dela era a única silhueta de barro
moldada por suas mãos de oleiro
E que os seios dela eram seu único regaço
E que as unhas dela eram as únicas garras que marcavam seu corpo.


E, apesar da dor, ela cria piamente em tudo.


Ele dizia que quando não voltava depois da aurora
era porque estava desenhando seu rosto na areia da praia
E que quando a mandava fazer silêncio,
Era para que pudesse admirar mais facilmente as nuances de sua beleza.
Ele dizia que quando puxava seus cabelos, era para que
pudesse beijar seu longo colo com mais afinco.


E, apesar da dor, ela cria piamente em tudo.


Ele dizia que quando comprimia seu braço, era para que
pudesse trazê-la ao seu peito com mais rapidez
E que as marcas que permaneciam,
Eram marcas de amor.
Ele dizia que a pressão dolorosa que ela sentia nas faces de seu rosto
não eram bofetadas,
Eram o sopro de suas mãos masculinas no seu rosto feminino,
Para que ela sentisse suas indignações e a proporção de seu amor desenfreado.


E, apesar da dor, ela cria piamente em tudo.


Ele dizia que a sombra roxa nos olhos dela eram apenas rastros dos momentos insensatos
de seu amor doentio
E que sua falta de dentes era um pedido de que aquele amor permanecesse em segredo sacramentado,
Apenas entre eles dois.
Ele dizia que a amava.


E, apesar da dor, ela cria piamente em tudo.










de Manoelle D'França




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Tudo o que tenho

  • 4


Tudo o que tenho
É tudo o que vejo
Tudo o que vivo
É tudo em que acredito.
Tudo o que em ti nasce
É tudo o que em mim renasce.
Tudo o que quero
É tudo o que sonho.


de Manoelle D'França








Sonhos sobre sonhos



Os sonhos muitas vezes são reais
Os sonhos muitas vezes são fatais
Muitas vezes nos tornam tolos
Apesar de sonhar nunca ser demais.

Os sonhos transformam a vida
Abrem ou fecham feridas
Transcedem o real e a ilusão
Sangram ou cicatrizam o coração.

Os sonhos movem os obstáculos
Abrem o rolo da vida como um pergaminho
Tirando ou botando tais obstáculos em nosso caminho
Os sonhos criam ou enterram uma esperança
Levantam ou derrubam aquele que se cansa.

Tornam difícil ou fácil
Tornam forte ou frágil
Tornam uma pessoa iludida
Mas nunca deixam de abrir caminho para uma nova vida.


de Manoelle D'França





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O teu sorriso




O teu sorriso...
O teu sorriso me é motivo de muitas alegrias,
Mas também me causa dor,
Por que parece que este não me pertence
Apesar de derramar amor.

Com tanta graça se intregas a mim
Toda vez que te vejo sorrir assim.
Mas não declaras o que sentes
Por que à outra teu coração pertence.
Mas o teu sorriso...
Este sim, é meu!
Tanto quanto o meu é teu.

Com apenas um sorriso, 
Uma vez me disseste que ela tem apenas parte do teu coração,
Mas que eu o tenho por inteiro
Por que quando sorris, tu sabes me deixar sem ação.
Flutuo no ar que tu respiras,
Me perco na maciez dos teus lábios,
Mergulho na imensidão das tuas palavras.
Palavras que tu não me dizes, mas que me sorris como que sagradas.
A verdade nua
É que mesmo que nunca me toques
Sempre serei tua.
Me sorrias assim,
E sempre terás o que quiseres de mim.



de Manoelle D'França 

Quem seria?



Eu sou sentido por todos
Evitado por muitos
Estou sempre aqui
Com um objetivo por cumprir

Tristeza que bate
Luz da lua que invade
Ilumina os cantos escuros da casa
Cobre de luz minha felicidade rasa
Coração vazio
Pelo corpo um frio
Ouço chamados ao luar
Chamados de uma voz familiar
Voz que me convida ao relento
E em seu tom, sinto o teu corpo sedento

Eu me declaro, eu me exponho
Eu te conquisto, eu te proponho
Uma noite sem fim
Uma vida de eternidade
O inquietante prazer de viver um amor de verdade

Eu sou o que muitos dizem que não acreditam
Eu sou o que todos um dia dirão que já sentiram
Eu sou o mais forte dos sentimentos que vivos permaneceram
Eu sou o mais estúpido dos sentimentos que para muitos pereceram
Eu sou a coisa mais pura, mais agressiva
Mais bela, mais corrosiva
Mais absoluta, mais incompleta
A coisa mais confusa, mais direta
Que mais causa dor, que mais causa clamor
Eu sou aquele que chamam de AMOR


de Manoelle D'França


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Pai, mãe... Feliz Bodas de Pérola!

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   Bem, este texto é pura e unicamente para parabenizar o casal mais ilustre deste mundo: meus pais. Eles estão comemorando seu trigésimo ano de união e cumplicidade e, baseada nisto, eu gostaria de expor como me sinto a respeito desta data.
   Há 30 anos atrás, dois seres humanos foram unidos por Deus, se tornando apenas um. São 360 meses de profunda parceria e companheirismo. Longos 10.950 dias de pura confiança, 262.800 horas de um amor insuperável, alguns segundos de desentendimentos e longos minutos de reconciliação.
   Vivendo ao lado deles dois durante meus tolos e inexperientes 17 anos e meio de vida, pude ver e compreender que um casamento não é mantido pelas aparências e pelo dinheiro, mas sim fortalecido pelo respeito e pela confiança mútua.
   Há muito mais de 30 anos atrás, duas pessoas viviam vidas semelhantes, tinham sonhos semelhantes, desejos semelhantes e o que mais tinham em comum: nem sonhavam em se conhecer um dia.
   Ela, uma menina introvertida e amedrontada, que resistia todos os dias aos extremos maus tratos físicos e psicológicos de pessoas que só deveriam lhe dar amor. Ele, um garoto de vida difícil, que apesar de ter tido que trabalhar duro para suster toda a família desde tenra infância, carregava sempre um sorriso no rosto. Ambos, mesmo separados, sem nunca terem se visto, resistiram aos maus tratos; aos preconceitos, aos abandonos, à escassez, à fome. Mas aquelas duas crianças que carregavam em si adultos sofridos, resistiram a tudo aquilo porque ainda havia algo muito especial, recompensador e libertador guardado para eles: eles mesmos, um ao outro.
   A vida fez das cruzadas uma pista de mão única, para que cada um deles trilhasse a estrada em direção ao outro, sem que houvesse desvios. Há 30 anos atrás, aquela menina e aquele garoto se encontraram... e se uniram. Mas nem tudo foram flores. Sofreram sim, sofreram preconceito, foram praguejados, mal compreendidos por familiares. Sofreram a massacrante dor de perder um filho. Mas tudo o que sofreram, passaram juntos, um amparando as lágrimas do outro; resistindo fortemente quando a vontade era de desistir, quando a força parecia já não se fazer mais presente.
   Mas, bons mares vêm para quem sabe navegar. As coisas mudaram, tanto material quanto sentimentalmente, mudaram para melhor. A união trouxe três crianças insuportáveis muito amadas que o casal atura há quase 30 anos lhe dando despesas e enchendo sua paciência, mas mesmo assim, não somos menos amados por isso. Como nossa família nunca foi o retrato das famílias comuns, sempre fomos meio loucos, palhaços, e nunca fomos de melosidade um para cima do outro; mas, sem dúvida, nos amamos muito e sabemos demonstrar isto de maneiras bem peculiares.
   Meus pais sempre foram meio misteriosos. Há certas coisas na vida deles que não os deixam muito à vontade para compartilhar, afinal, como diz minha mãe: "coisas ruins não devem ser lembradas". Eles, com certeza, passaram por muito mais do que contam. Mas isso também não é da minha conta, casal que se preze tem seus segredos guardados apenas um para o outro.
   Nunca fomos de dizer "eu te amo" 2.000 vezes ao dia um ao outro, vivemos naquela de "você sabe que eu te amo loucamente, então, não me olhe assim"; e devido a isto, às vezes nossa recíproca parece ficar suspensa no ar. Entre o casal em questão isso também acontece; eles não são de ficar se declarando um para o outro, mas muitas vezes se declaram para mim! Não... não exatamente para mim, como você deve ter compreendido, mas eles me usam para expor o que sentem um pelo outro, e eu morro de felicidade com as coisas que ouço dos dois. 
   Veja, quando eu era pequena, não tinha uma relação tão boa com a minha mãe, éramos bem distantes. Mas era porque, como toda criança/adolescente eu achava que sabia de tudo e que minha mãe não gostava de mim. Mas cresci só um pouco e percebi que, na verdade, ela fazia muito esforço para conseguir expor todo amor que guardava. Eu me esquecia de uma coisa: ela não teve esse amor, para ela era difícil dá-lo a alguém. Com isso, meu pai sempre me dizia "Compreenda um pouco a sua mãe, não aja assim com ela. Ela teve uma vida muito difícil", o tempo me ensinou a entender o que ele me dizia e a amar minha mãe cada vez mais. Aos poucos, temos nos tornado grandes amigas. Já ela, durante uma conversa emocionante, me disse com os olhos cheios de lágrimas: "Quando conheci o seu pai, comecei a ter uma vida". Nesse momento nos abraçamos por um longo tempo, e eu percebi o quanto eles sentem necessidade um do outro, como se precisam, como se completam. Ele tem um jeito todo especial de resolver as coisas entre eles quando há algum desentendimento, e ela sabe controlar as loucuras dele como ninguém.
   Bom, eu só estou aqui para dizer que os amo muito e que desses 30 anos, surjam mais 30, 60, 120 anos de amor, amizade e cumplicidade. Desejo que este casal, que tanto se amou e se respeitou na saúde, na doença, na felicidade e nas dificuldades, continuem segurando firme este colar para que possa ser colocada nele a 30ª pérola sem que ele arrebente. Até que a morte os separe.
Pai, mãe... Feliz Bodas de Pérola!
E 'o que Deus uniu, o homem não separe'.




de Manoelle D'França
(Para duas pessoas extremamente especiais).