Metrô

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    Acordar cedo todos os dias, pegar conduções lotadas, chegar em casa completamente exausta, contas, problemas, responsabilidades... e aí percebemos que no fim das contas somos simplesmente mais alguém no fluxo do universo adulto. Mas e quanto à nossa forma jovem de ver o mundo? E quanto à criatividade que tínhamos? E quanto à nossa imaginação?
    Desde que assumi o compromisso da idade adulta de mergulhar de cabeça neste mundo gigante por mim mesma, comecei a ver certas coisas com mais intensidade. Ou talvez eu só tenha voltado a ver a vida como eu via antes.
    Eu sempre tive o hábito de tentar enxergar a poesia de tudo. Procurá-la, encontrá-la, absorvê-la e compartilhá-la. Afinal, é para isso que serve a poesia, não? Alimentar-se dela e alimentar a quem dela tem fome.
    Pegar o metrô lotado todos os dias nunca será algo divertido, mas eu criei um certo hábito perante isso. Não sei ao certo se criei, às vezes mais parece que eu apenas percebi que o tinha. Eu gosto de observar as pessoas. Não observar para julgar, reparar ou incomodar... gosto de observar simplesmente. Desde pequena sou uma pessoa muito observadora. Observadora antes de falante; e sei que às vezes vejo coisas onde quase ninguém mais vê. Eu vejo poesia.
    Quando entro no metrô e tenho a oportunidade de tomar um acento, eu gosto da ideia de poder ver rostos acima do meu. Gosto de erguer meus olhos e enxergar todo tipo de gente. Gosto de olhar nos olhos de algumas dessas pessoas e perceber o que elas transmitem com suas pupilas dilatadas, com suas lágrimas, com seus sorrisos misteriosos, com sua visão de quem parece estar só no meio de uma multidão. Olho para toda aquela gente, uma a uma, e fico me perguntando para onde estão indo. Fico me perguntando onde estarão no fim do dia, se estarão sãs e salvas no conforto de seus lares, se estarão se divertindo pelos bares e festas, se estarão nas tragédias dos noticiários do dia seguinte. Fico me perguntando o que aconteceu com aquela pessoa que puxou conversa comigo e que eu nunca mais vi.
    Uns dias atrás, num desses mais desmotivados em que a gente não está a fim de prestar atenção em nada, uma moça entrou no vagão e posicionou-se no meu campo de visão. Horário de pico, o metrô estava lotado como o habitual. Olhei para cima sem qualquer pretensão, e então meus olhos cruzaram os dela, apesar de os dela não terem notado os meus — e nem nada ao redor. Estavam absurdamente vermelhos, como os de quem recebe um golpe de areia; os cílios colados e úmidos; as pupilas guardando um segredo nos olhos profundamente negros. Ela fitava o chão. Os cabelos meio desgrenhados e roupas amarrotadas de quem se asseia sem vontade.
    Não era algo realmente de chamar a atenção, até porque não há nada de incomum em encontrar pessoas tristes no metrô, mas foi algo que me chamou a atenção. A dor daquela mulher, fosse o que fosse, era aparente, quase palpável. Eu pude sentir a perda em seus olhos. Ninguém mais parecia notá-la. Era uma manhã intensa e corrida como todas as outras, cheia de pessoas que imaginam não ter tempo para olhar umas para as outras.
    A mulher piscava poucas vezes, e quando o fazia, era bem lentamente. Ela, de pé, segurava uma bolsa sem muita firmeza. Parecia estar muito, muito distante dali. A certa altura o vagão dava solavancos inesperados que deixavam os passageiros ainda mais agitados e estressados por esbarrarem ou serem jogados uns contra os outros; o corpo daquela mulher desconhecida ia para lá e para cá, ameaçava cair, era empurrado, esbarrado por outras pessoas... mas ela não parecia se importar. Sua feição não se modificava, sua reação não mudava, ela não arriscava movimentos. Ela não se segurava e nem se apoiava em nada; uma das mãos repousava sobre a lateral do rosto.
    Então um homem apareceu por perto, um pouco à frente dela. Não sei dizer ao certo em que momento ele apareceu, isso escapou à minha percepção e meus olhos. O homem tinha uma grande e aparentemente pesada mochila presa ao peito. Ele então se virou um pouco para trás, em direção à mulher, sem parecer realmente notá-la, e baixou a mão até a altura de sua bolsa, tomando-a para si. Ela sequer ergueu o rosto, não se moveu, não piscou. Ficou apenas ali, movendo-se pelos solavancos do vagão agora sem seu único pertence: a bolsa. O homem agora tinha os olhos fechados — parecia dormir de pé —, tinha uma mochila no peito e uma bolsa feminina em uma das mãos.
    Após certo tempo, um acento desocupou-se à frente do homem. Então ele voltou-se para trás novamente, tomou a mulher desconhecida pela mão e a colocou no banco vazio. Ela caiu sentada pesadamente sobre o banco, como um montante de ossos e músculos abandonados; ainda com uma das mãos no rosto, o sofrimento vermelho estampado nos olhos.
    Lembro-me de estar muito cansada nesse dia, lutando contra o sono. Em algum momento fui vencida, e quando fui acordada pelo aviso de chegada do maquinista, já na última estação, as pessoas já estavam aglomeradas frente às portas e não havia mais ninguém sentada ao meu lado. Levantei-me, olhei os grupos de pessoas, olhei em volta, mas não encontrei a mulher em lugar algum. Ao longe, vi o rosto do homem de perfil. Ao saltar do vagão, eu ainda o vi caminhando para longe com sua mochila pesada, sozinho e sem a bolsa da tal mulher.
    Sozinha e com minha mochila pesada, segui meu próprio rumo pelo mundo adulto, onde a poesia é implícita, mas ainda existe em cada pequeno gesto.






 Veja esta publicação no Juventude Clichê.

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· 25/05/2014 ·