Rosas para Rosalli

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Rosas sobre a mesa
Algumas enfeitando a sobremesa
Caules espinhosos pelo chão
Botões de rosas nas palmas das mãos


Rosas vermelhas sufocando margaridas em um jarro
Rosas amarelas em um vaso de barro
Rosas lilases abandonadas à própria sorte
Rosalli dizia que as flores têm cheiro de morte


Rosas sortidas em um buquê
Rosas enfeitando um vestido de crochê
Rosalli vendia rosas por aí
Mas não tomava nenhuma para si


Rosalli jamais recebia flores
Lembravam-lhe antigos e dolorosos dissabores
Rosas brancas certa vez combinaram seu vestido
Agora, rosas negras são jogadas em seu jazigo


Mas Rosalli jamais recebe flores
Lembram-lhe antigos e dolorosos dissabores
Então, todas as noites ergue-se Rosalli
Que caminha vendendo suas flores por aí
Antes de o sol nascer, ela volta ao seu descanso eterno
Sem tomar nenhuma rosa para si


Por isso, todas as manhãs, no túmulo de Rosalli há um tesouro:
No lugar das rosas, moedas de ouro.




Manoelle D'França

 Veja esta publicação no Juventude Clichê.





Estilhaços de domingo

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    Amanhã é segunda-feira e você já tem de ir trabalhar de novo. É tão engraçado, não acha? Parece que ontem mesmo era sexta-feira. Em momentos como este é que vemos o quão certas coisas são mecânicas e céleres. Aliás, é uma das grandes consequências que crescer acaba nos trazendo: mecanismos que têm de ser cumpridos independentemente da nossa real vontade, ou podemos pagar caro no fim das contas — ou, simplesmente, podemos pagar caro as contas. São ócios do ofício, dizemos. Ofício, que para nós, antigamente, era apenas aquele papel em branco que a “tia” do maternal distribuía durante as aulas — depois de termos feito belas esculturas com massinha, claro —, onde você desenhava seu pai e sua mãe, ambos com as cabeças disformes e perninhas de palito; sem se esquecer daquele sol bem amarelo que você sempre desenhava no canto da folha. É engraçado como a gente não se esquece desses detalhes; nunca mais. Às vezes estou distraída em algum lugar, quando passa por mim alguém com um perfume que funciona como uma máquina do tempo. Aquele cheirinho bom... De onde será que eu conheço? Ah, claro! É o mesmo perfume do sabonete que tinha na escola, no Jardim de Infância... Aquele sabonete que a gente adorava passar o máximo de tempo possível esfregando nas mãos, só pra vê-las branquinhas de tanta espuma. Eu me lembro do sabonete da escola. Às vezes você deve ver algumas crianças indo à escola, hoje desacompanhadas, e lembrar-se exatamente do jeito seguro que seu velho segurava a sua mão quando te levava às aulas. Deve lembrar-se de como ele falava pouco, ou de como fugia dos inúmeros “porquês” que você perguntava o tempo todo... Ou talvez deve lembrar-se de como ele adorava responder suas perguntas, conversar contigo e fazê-la rir. Você olha para ele hoje, sempre tão preocupada com aquela saúde frágil que ele tem agora, com aqueles olhos enrrugadinhos e aquelas pequenas bolsinhas aparecendo logo abaixo deles, e se pergunta o quanto ele consegue enxergar agora. Isso porque você não se esquece de como você perguntava o que está escrito ali?, quando ainda não sabia ler, e ele lia em voz alta para você, sem pestanejar. Trivialidades, eu sei. Mas são trivialidades que carregamos conosco eternamente, o tempo todo, mesmo que apenas no subconsciente; ali, bem escondidinhas, dispostas a serem tão cortantes como estilhaços nos momentos de saudade. Nos momentos em que essa bendita vadia chamada Saudade te pega de jeito, naquele domingo tão comum, em momentos tão banais e tranquilos ou até entediantes, quando sua mente está vazia, e aí, então... Ela entra sem sequer perguntar se deve.



Manoelle D'França 


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