Céu

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Tão frágeis e tão fortes
Desafiam os mais finos galhos
Antes de seguirem seu norte.

Tão pequenos e tão gigantes
Cabem na palma da mão
Até dentro de um chapéu
Mas vasto e infinito é o céu em seu coração
Vasto e infinito é o seu coração sob o céu.

Nem parece um poema de verdade
Mas falo de céu, pássaros e liberdade.






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· 23/11/2012 ·

Cante em silêncio

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  A noite era quente, o mormaço cobria meu corpo como uma incômoda manta de rendas; a Lua me encarava quase indecentemente, então evitei olhar-lhe de forma muito fixa, para que ela não pensasse que lhe dava muita importância. Prossegui lhe evitando e evitando e evitando... até que ela decidisse vir atrás de mim. Então notei que ela de fato me seguia, olhando-me fixamente sem fazer questão de desviar-se da rota que me via tomando. Comecei a acelerar meus passos a fim de ver se ela desistiria; mas não o fez, e caminhava tão rapidamente quanto eu, até eu esconder-me atrás de uma imensa amendoeira; logo, só restou-lhe ver-me pelas costas.

  Mas sua luz era tão intensa... Queria vê-la, queria encará-la e descobrir o que ela tinha a me dizer. Então virei-me e ficamos vis-à-vis, admirando as faces um do outro. E lá estava ela: tão linda, tão grande, tão Lua... e com um brilho prateado que fazia o Sol não ter tanta importância. Perguntei seu nome, mas nada me foi revelado. Perguntei-lhe de onde vinha me seguindo, mas ela manteve segredo; então apenas a admirei, pensando em uma forma de fazê-la contar o que queria de mim. Logo me lembrei de que podia cantar; dizem que a música abre os corações, que às vezes os parte e até os cola pedacinho a pedacinho novamente. Se a Lua tivesse um coração, talvez a música pudesse abrir as portas dele para mim. Deixei que diferentes notas me saíssem garganta afora, suavemente... Mas algo me calou. Uma brisa tranquila me soprou aos ouvidos:

shhhhh...

  A Lua me silenciou e soprou novamente aos meus ouvidos, desta vez, que eu cantasse em silêncio, pois as canções do coração não se ouvem, tampouco se vociferam... Apenas se sentem. Enquanto a Lua e eu nos apaixonávamos silenciosamente, o sono me embalava e o Sol tomava o lugar de minha musa prateada no céu. Então decidi que esperaria por ela todas as noites, e que cantaria em silêncio para ela sempre que a olhasse, porque sei que apenas ela pode ouvir minhas canções, apenas ela é capaz senti-las. Assim me apaixonei pela Lua, e até hoje a amo sem saber seu verdadeiro nome, sem saber se tem um coração, sem sequer saber se de fato me ama de volta.


Manoelle D'França


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Rosas para Rosalli

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Rosas sobre a mesa
Algumas enfeitando a sobremesa
Caules espinhosos pelo chão
Botões de rosas nas palmas das mãos


Rosas vermelhas sufocando margaridas em um jarro
Rosas amarelas em um vaso de barro
Rosas lilases abandonadas à própria sorte
Rosalli dizia que as flores têm cheiro de morte


Rosas sortidas em um buquê
Rosas enfeitando um vestido de crochê
Rosalli vendia rosas por aí
Mas não tomava nenhuma para si


Rosalli jamais recebia flores
Lembravam-lhe antigos e dolorosos dissabores
Rosas brancas certa vez combinaram seu vestido
Agora, rosas negras são jogadas em seu jazigo


Mas Rosalli jamais recebe flores
Lembram-lhe antigos e dolorosos dissabores
Então, todas as noites ergue-se Rosalli
Que caminha vendendo suas flores por aí
Antes de o sol nascer, ela volta ao seu descanso eterno
Sem tomar nenhuma rosa para si


Por isso, todas as manhãs, no túmulo de Rosalli há um tesouro:
No lugar das rosas, moedas de ouro.




Manoelle D'França

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Estilhaços de domingo

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    Amanhã é segunda-feira e você já tem de ir trabalhar de novo. É tão engraçado, não acha? Parece que ontem mesmo era sexta-feira. Em momentos como este é que vemos o quão certas coisas são mecânicas e céleres. Aliás, é uma das grandes consequências que crescer acaba nos trazendo: mecanismos que têm de ser cumpridos independentemente da nossa real vontade, ou podemos pagar caro no fim das contas — ou, simplesmente, podemos pagar caro as contas. São ócios do ofício, dizemos. Ofício, que para nós, antigamente, era apenas aquele papel em branco que a “tia” do maternal distribuía durante as aulas — depois de termos feito belas esculturas com massinha, claro —, onde você desenhava seu pai e sua mãe, ambos com as cabeças disformes e perninhas de palito; sem se esquecer daquele sol bem amarelo que você sempre desenhava no canto da folha. É engraçado como a gente não se esquece desses detalhes; nunca mais. Às vezes estou distraída em algum lugar, quando passa por mim alguém com um perfume que funciona como uma máquina do tempo. Aquele cheirinho bom... De onde será que eu conheço? Ah, claro! É o mesmo perfume do sabonete que tinha na escola, no Jardim de Infância... Aquele sabonete que a gente adorava passar o máximo de tempo possível esfregando nas mãos, só pra vê-las branquinhas de tanta espuma. Eu me lembro do sabonete da escola. Às vezes você deve ver algumas crianças indo à escola, hoje desacompanhadas, e lembrar-se exatamente do jeito seguro que seu velho segurava a sua mão quando te levava às aulas. Deve lembrar-se de como ele falava pouco, ou de como fugia dos inúmeros “porquês” que você perguntava o tempo todo... Ou talvez deve lembrar-se de como ele adorava responder suas perguntas, conversar contigo e fazê-la rir. Você olha para ele hoje, sempre tão preocupada com aquela saúde frágil que ele tem agora, com aqueles olhos enrrugadinhos e aquelas pequenas bolsinhas aparecendo logo abaixo deles, e se pergunta o quanto ele consegue enxergar agora. Isso porque você não se esquece de como você perguntava o que está escrito ali?, quando ainda não sabia ler, e ele lia em voz alta para você, sem pestanejar. Trivialidades, eu sei. Mas são trivialidades que carregamos conosco eternamente, o tempo todo, mesmo que apenas no subconsciente; ali, bem escondidinhas, dispostas a serem tão cortantes como estilhaços nos momentos de saudade. Nos momentos em que essa bendita vadia chamada Saudade te pega de jeito, naquele domingo tão comum, em momentos tão banais e tranquilos ou até entediantes, quando sua mente está vazia, e aí, então... Ela entra sem sequer perguntar se deve.



Manoelle D'França 


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Dom sem dono

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Teimosia de muitas forças,
indomável, sem controle algum.
Dissimulado e cheio de vícios,
nascido e criado em lugar nenhum.

Um intolerante noturno, matutino, vespertino.
Dom sem dono,
dom em desatino.
Desaba em cascatas de desequilíbrio,
mas tomba como flores na primavera.
Do coração,
suas palavras me fecham uma cratera.

Me possui quando tem vontade,
e some deixando-me à mercê da realidade.
A única cura para a dor que me causa,
o chão em que piso quando me desvia da estrada.
Meu lar quando me deixa adormecer no sereno.
Do melhor dos antídotos,
o inevitável veneno.


Manoelle D'França


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