Cante em silêncio

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  A noite era quente, o mormaço cobria meu corpo como uma incômoda manta de rendas; a Lua me encarava quase indecentemente, então evitei olhar-lhe de forma muito fixa, para que ela não pensasse que lhe dava muita importância. Prossegui lhe evitando e evitando e evitando... até que ela decidisse vir atrás de mim. Então notei que ela de fato me seguia, olhando-me fixamente sem fazer questão de desviar-se da rota que me via tomando. Comecei a acelerar meus passos a fim de ver se ela desistiria; mas não o fez, e caminhava tão rapidamente quanto eu, até eu esconder-me atrás de uma imensa amendoeira; logo, só restou-lhe ver-me pelas costas.

  Mas sua luz era tão intensa... Queria vê-la, queria encará-la e descobrir o que ela tinha a me dizer. Então virei-me e ficamos vis-à-vis, admirando as faces um do outro. E lá estava ela: tão linda, tão grande, tão Lua... e com um brilho prateado que fazia o Sol não ter tanta importância. Perguntei seu nome, mas nada me foi revelado. Perguntei-lhe de onde vinha me seguindo, mas ela manteve segredo; então apenas a admirei, pensando em uma forma de fazê-la contar o que queria de mim. Logo me lembrei de que podia cantar; dizem que a música abre os corações, que às vezes os parte e até os cola pedacinho a pedacinho novamente. Se a Lua tivesse um coração, talvez a música pudesse abrir as portas dele para mim. Deixei que diferentes notas me saíssem garganta afora, suavemente... Mas algo me calou. Uma brisa tranquila me soprou aos ouvidos:

shhhhh...

  A Lua me silenciou e soprou novamente aos meus ouvidos, desta vez, que eu cantasse em silêncio, pois as canções do coração não se ouvem, tampouco se vociferam... Apenas se sentem. Enquanto a Lua e eu nos apaixonávamos silenciosamente, o sono me embalava e o Sol tomava o lugar de minha musa prateada no céu. Então decidi que esperaria por ela todas as noites, e que cantaria em silêncio para ela sempre que a olhasse, porque sei que apenas ela pode ouvir minhas canções, apenas ela é capaz senti-las. Assim me apaixonei pela Lua, e até hoje a amo sem saber seu verdadeiro nome, sem saber se tem um coração, sem sequer saber se de fato me ama de volta.


Manoelle D'França


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